UE cria estatal de matérias-primas e pressiona mineração brasileira na cadeia China
· Redação CBI
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Von der Leyen anunciou no discurso do Estado da União uma nova empresa europeia de matérias-primas críticas para reduzir dependência da China, enquanto o déficit comercial UE-China atinge 1 bilhão de euros por dia. Para o Brasil, abre janela em terras raras e lítio, mas pressiona quem depende de ...
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou em 16 de setembro, no discurso do Estado da União ao Parlamento Europeu, a criação de uma nova instituição chamada Empresa Europeia de Matérias-Primas Críticas, com o objetivo de garantir suprimento estável e montar reservas estratégicas de terras raras e outros insumos considerados críticos. No mesmo discurso, ela citou que o déficit comercial da UE em bens com a China já chega a 1 bilhão de euros por dia e prometeu usar "todas as ferramentas disponíveis" para reequilibrar a relação. Para o Brasil, o movimento europeu abre uma janela concreta em terras raras, lítio e nióbio, mas também sinaliza que Bruxelas vai competir diretamente com Pequim por ativos minerais em território brasileiro.
O anúncio foi feito no plenário do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, durante o discurso anual sobre o estado da União. Von der Leyen apresentou dois medos simultâneos da Europa em relação à China: de um lado, o excesso de produtos chineses desembarcando no mercado europeu, com déficit comercial de bens que já soma 1 bilhão de euros por dia; de outro, a dependência europeia de terras raras e matérias-primas críticas fornecidas por Pequim. A resposta institucional é a criação da Empresa Europeia de Matérias-Primas Críticas, uma estatal dedicada a comprar, estocar e garantir acesso a esses insumos. A lógica é dupla: reduzir a exposição à China na ponta industrial e, ao mesmo tempo, evitar que empresas chinesas ampliem controle sobre recursos minerais fora do território chinês.
O impacto chega ao Brasil por dois canais. O primeiro é a demanda europeia por terras raras, lítio, nióbio, grafita e cobre — insumos em que o subsolo brasileiro é competitivo, especialmente em Minas Gerais, Goiás e Bahia. A nova estatal europeia tende a buscar contratos de longo prazo com mineradoras fora da China, e o Brasil aparece na lista curta de jurisdições alternativas. O segundo canal é o efeito colateral: se a UE fechar mais o cerco a produtos chineses, Pequim pode redirecionar excedentes para outros mercados, incluindo o brasileiro, pressionando preços de bens industriais e afetando a competitividade da indústria nacional. Reguladores brasileiros como a CAMEX (comércio exterior) e o MDIC precisarão monitorar tanto a entrada de excedentes chineses quanto a disputa por ativos minerais no país.
Os dados mostram que a Europa fala em reequilíbrio comercial com a China há pelo menos três anos, desde o discurso de von der Leyen sobre "de-risking" em 2023, mas sem resultado prático: o déficit diário de 1 bilhão de euros é o mesmo patamar de 2024. Na leitura do CBI, o que muda agora é o instrumento — uma estatal de matérias-primas é uma ferramenta de política industrial, não apenas retórica. Isso indica que Bruxelas vai competir diretamente com Pequim por contratos de fornecimento em países como Brasil, Chile, Indonésia e África do Sul. Para mineradoras brasileiras de médio porte, especialmente as listadas na B3 com projetos de terras raras em fase de licenciamento, a janela é real, mas exige posicionamento rápido: contratos europeus costumam vir com cláusulas de rastreabilidade e padrões ESG que nem todo projeto brasileiro cumpre hoje.
O que acompanhar: primeiro, a publicação do regulamento que cria a Empresa Europeia de Matérias-Primas Críticas, prevista para o primeiro semestre de 2027, que definirá quais minerais entram na lista estratégica e como serão feitos os contratos de compra. Segundo, a resposta chinesa — Pequim pode acelerar acordos de investimento em mineração no Brasil via empresas como CMOC e Zijin, que já operam no país, para travar fornecimento antes da Europa. Terceiro, o posicionamento do governo brasileiro: se o BNDES e o Ministério de Minas e Energia vão tratar a demanda europeia como oportunidade de política industrial ou apenas como exportação bruta de minério, repetindo o padrão do ferro.
Nota sobre a fonte
Fonte chinesa (财新/Caixin) tende a enquadrar a medida europeia como pressão geopolítica sobre Pequim e a destacar a reação chinesa via CMOC e Zijin no Brasil, minimizando o espaço de negociação que se abre para mineradoras brasileiras de médio porte.
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